Categoria: Visão de mundo

Cuidado com o Evangeliquês – Parte 1

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Todos os grupos têm uma linguagem própria. Advogados têm seus jargões jurídicos, médicos têm seus jargões, funkeiros têm seus jargões, adolescentes têm seus jargões…não importa o tipo de grupo. A linguagem ajuda a unificar internamente e a diferenciar externamente. Provavelmente por isso temos no meio evangélico uma série de jargões e uma linguagem própria tão peculiar que eu chamo de evangeliquês. Em algumas igrejas, é quase um dialeto à parte.

Os problemas disso são infinitos. Eu mal conseguiria começar a listar. O principal deles, porém, é que falar evangeliquês vai contra um dos principais mandamentos do cristianismo, que é espalhar o Evangelho. Como você vai espalhar o evangelho adequadamente usando uma ferramenta que serve principalmente para fechar o grupo em um gueto e afastá-lo das pessoas de fora? E nem é por mal. Chega um momento em que você está tão envolvido com as atividades da igreja que começa a falar lá fora do mesmo jeito que fala no meio do seu grupo. É natural.

Há uma linguagem dentro da igreja que é perfeitamente compreendida pelo público interno. Mas ao estender isso para quem não está na mesma vibe que você, surge o choque cultural. Você começa a ser mal compreendido. As pessoas já não entendem mais suas palavras. Elas já o acham ET por ir tanto a uma igreja. Agora começam a achá-lo ET por estar falando coisas sem sentido (na cabeça delas).

Absurdamente, muitos cristãos não são perseguidos na família ou no trabalho por seu comportamento correto, mas, sim, por seu linguajar esquisito. Parecem, aos olhos dos outros, fanáticos. Principalmente quando, além das palavras esquisitas, começam a falar de assuntos que ninguém de fora entende (e nem quer entender).

O marido (não cristão) fala alguma coisa negativa para a esposa cristã e ela já responde com um: “Tá amarrado, em nome de Jesus!”. Ou fica falando “Deus isso”, “Deus aquilo” em momentos totalmente fora do contexto. Quanto mais ouvimos uma palavra, menos atenção damos a ela. Não gaste o nome “Jesus” ou a palavra “Deus” à toa, por favor.

Temos que ter equilíbrio e entender que a vida cristã começa de dentro para fora. Não é pelo muito falar que você irá converter alguém. Não precisa falar de igreja o tempo todo, não precisa dizer “ungido”, “aleluia” e “glória a Deus” o tempo inteiro para provar que é de Deus. Nem chamar os outros de “perturbados”, “pervertidos” etc. Devemos nos diferenciar pelo nosso comportamento, pelo nosso caráter.

Somos ETs pela nossa maneira de pensar, porque nossos valores são diferentes, porque nossa visão de mundo é outra, não porque falamos esquisito e nos vestimos com sacos de batata. Nossa linguagem deve ser limpa, sem a pobreza de palavrões, mas também sem o evangeliquês, que também empobrece o discurso.

E não são apenas os exemplos extremos, como “aleluia” e “tá amarrado”, mas também os termos que usamos no dia a dia. Se eu disser para alguém de fora da igreja que fulano é “muito de Deus”, o que você acha que essa pessoa vai entender? Talvez entenda o que eu quero dizer, mas talvez não entenda. De qualquer forma, meu linguajar vai causar estranhamento o que, por si só, prejudica a comunicação.

Tente descrever o que é alguém “muito de Deus”. O que você quer dizer com isso? Que tipo de pessoa você está descrevendo? Pense um pouquinho mais e traduza seu pensamento em palavras que a pessoa esteja habituada a ouvir, para que ela entenda sem restrições e com o mínimo possível de barreiras.

O próprio apóstolo Paulo se esforçava para adequar seu discurso aos ouvintes. Ele não poderia falar como judeu para os não judeus, porque quando a linguagem que você usa para falar é diferente da linguagem que seu interlocutor está habituado a ouvir, você cria um ruído que corta o canal de comunicação:

“E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei.
Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei.
Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.
E eu faço isto por causa do evangelho, para ser também participante dele.”
1 Coríntios 9:20-23

E outra coisa, você ganha a atenção das pessoas muito mais por suas atitudes e pelas coisas boas que tem dentro de você do que por qualquer discurso. Todos nós já conhecemos pessoas que se diziam cristãs, mas tinham mágoa, eram maldosas, desonestas ou descontroladas. Isso porque eram fluentes em evangeliquês e viviam dentro de uma igreja, mas não se preocuparam com o seu interior. Então, se quiser ajudar alguém, é exatamente nisso que deve focar: no tipo de pessoa que você quer ser.

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Por que não oramos pelos mortos

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Apesar do que diz um hoax espalhado por aí, a Universal não faz oração pelos mortos no dia dos finados (nem em dia nenhum). Não há na Bíblia nenhuma indicação de que deveríamos fazer. Pelo contrário, diz que todas as chances de salvação se encerram com a morte e que não há mais possibilidade de ser ajudado depois que sua vida acaba. Há céu e inferno, nenhum lugar intermediário. E não se pode passar do céu para o inferno ou vice-versa. A situação após a morte, seja ela qual for, é imutável.

Mas, se a Bíblia é contra essa prática, de onde isso surgiu? Essa, especificamente, veio de uma tradição pagã celta. Durante o festival de Samhain, que ia de 30 de outubro a 2 de novembro, as pessoas homenageavam os mortos e os deuses que, para os celtas, também eram seus ancestrais. O cristianismo iniciou sem nada dessas coisas, mas depois que foi institucionalizado e absorvido pelo catolicismo, começou a fusão com práticas pagãs. Assim, o festival de Samhain se dividiu em Dia dos finados (homenagem aos mortos) e Dia de todos os santos (homenagem aos deuses).

Como sempre digo, é importante saber por que você faz as coisas que faz — antes de decidir continuar ou não fazendo. A base do ato de orar pelos mortos está na crença de que existe o purgatório, um lugar intermediário, entre o inferno e o céu, para onde a pessoa iria purgar seus pecados até poder entrar no céu. Convenientemente, seria necessário pagar missas, fazer orações e comprar indulgências, caso quisesse sair mais cedo do purgatório.

Se cremos que a Bíblia deve ser respeitada como base para a nossa fé, não cremos no purgatório, já que ela é bem clara quanto a haver apenas o céu e o inferno como destinos finais da alma, e não cita purgatório algum*. E, se não cremos no purgatório, não faz o menor sentido orar pelos mortos. Deus não ouve essa oração, pois ela não tem fundamento. Se Deus não ouve essa oração, para quem você está orando?

A cultura é tão arraigada aqui no Brasil que há cristãos protestantes que visitam túmulos nesse dia. Alguns se sentem culpados se não o fizerem. Sou contra essa prática, primeiro por ser originada de um culto pagão (o que, por si só, já mostra que tipo de influência espiritual rege essa celebração). Segundo, porque não creio que, espiritualmente falando, faça bem a alguém visitar o túmulo de um parente morto. Primeiro, porque a pessoa não está mais ali. Segundo, porque não vai adiantar orar por ela – muito menos acender velas. Terceiro, porque vai trazer de volta à sua memória tudo o que você viveu e isso fragiliza emocionalmente. A fragilidade emocional é uma porta aberta para o mal que vem desenterrar culpas, dores, mágoas e tristeza.

O período do luto é importante, para processarmos a perda. Mas ele deve acabar pouco tempo depois da morte da pessoa e não ser renovado uma vez por ano. O que você tem de fazer pelos seus parentes, faça enquanto estão vivos. Depois de mortos, não vai adiantar esforço algum para aplacar sua consciência levando flores ao túmulo e tendo conversas post-mortem que não teve durante a vida.

Lide com o fato de que você fez o que sabia fazer com os recursos que tinha. Por exemplo, hoje eu teria outro tipo de relacionamento com o meu pai. Mas, quando ele morreu, eu não sabia o que sei hoje. Então, o relacionamento que tive com ele foi o que eu sabia ter. O que me resta é fazer o meu melhor por quem está vivo hoje. E ensinar outras pessoas a entenderem seus próprios pais e não exigirem deles mais do que eles têm condições emocionais de dar.

Lutamos por outro tipo de mortos: aqueles que, apesar de ainda respirarem, terem um corpo e caminharem por este mundo, estão longe de Deus. Porque, se Deus é vida, quem está longe dele está morto. Por esses mortos vivos ainda podemos orar. Eles valem nosso esforço. Eles valem nossas noites em claro, nossas orientações, nosso direcionamento. É por eles, os sofridos deste mundo, que oramos e lutamos. É pelos que vivem angustiados, deprimidos, desanimados e cansados que buscamos.

Esses vivos mortos podem tornar a viver, por isso, lutamos por eles. E não acendemos velas por eles, mas acendemos nossa própria luz, para que nos vejam e enxerguem o caminho. Ao ganharem vida novamente, isto é, ao terem uma experiência pessoal com Deus (não uma experiência religiosa), tudo mudará. Serão vivos. E, quando o corpo morrer, eles continuarão a viver, pois estarão com o Autor da vida. É isso que significa “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em Mim, nunca morrerá” (João 11.25,26).

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*Antes que algum católico surja do além aqui citando Macabeus para dizer que há base bíblica para a doutrina do purgatório, explico: Macabeus é apócrifo e não faz parte da Bíblia original (e nem da que utilizamos hoje, está presente apenas na Bíblia católica, à qual foi acrescentado). O próprio autor do livro sabia que ele não era divinamente inspirado, tanto que escreveu: “…finalizarei aqui minha narração. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este o meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que não pude fazer melhor” (2 Macabeus 15).