Categoria: recordar é recordar

Aprendendo a dirigir

A interface da Revista Paradoxo foi toda remodelada, e os arquivos de minha extinta coluna (ainda a ressuscitarei…se o Mark não tiver me colocado em seu caderninho preto ad infinitum…risos…) Sala de Estar foram para o brejo… mas alguns posts são de utilidade pública, como a série em que contei minha saga para aprender a dirigir…e nesse período de férias do Lampertop, acho que vale a pena agendá-los para serem publicados, assim quem não leu, pode acompanhar…e quem está passando pelo mesmo drama, quem sabe se anime 🙂   Em tempo: já tenho a CNH definitiva há uns três anos e dizem as boas línguas que sou excelente motorista 🙂

Aprendendo a dirigir

Da necessidade de lidar com coisas novas

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre

O máximo que eu sabia era girar a chave e ligar o carro. As aulas teóricas no curso de formação de condutores, vulgo auto-escola, foram uma festa. Como gosto de estudar, prestei atenção em cada uma delas e fiz um montão de exercícios. Passei no exame teórico mesmo com uma gripe horrenda e uma dor de cabeça pavorosa. Não via a hora de pegar um carro e aprender a dirigir. Mas nada é assim tão fácil.

Peguei um instrutor estressado, o que já foi, por si só, ruim. Estava nervosa e apavorada, confesso. Veja bem, eu tenho noção das coisas. Estava na direção de uma máquina pesadíssima, que pode colidir com qualquer coisa e matar, ferir, arrancar pedaço de quem atravessar seu caminho (ou estiver dentro dela).  Com esse primeiro instrutor, mesmo me esforçando para prestar atenção, fazia o contrário do que ele acabara de dizer.  Passamos três vezes pelo mesmo cruzamento e eu não percebi, fizemos conversão à esquerda e à direita quinze mil vezes e eu simplesmente me esquecia a ordem dos passos.

Como é mesmo? Liga o pisca, se tiver que parar, pisa devagar no freio, depois na embreagem até o fim. Coloca em primeira, solta a embreagem pouquinho, pisa no acelerador, solta a embreagem até o meio e vai. Só não pode esquecer de girar o volante e desligar o pisca. Solta o resto da embreagem e vai até os 20 Km/h para então pisar na embreagem até o fim e colocar na segunda marcha. Aí solta a embreagem e não se esqueça de colocar o pé esquerdo apoiado ao lado, jamais em cima da embreagem, ou perde ponto. Quando não precisar parar, dá para fazer uma conversão sem usar freio nem embreagem, em segunda marcha. Ele não passou comigo a terceira, a quarta, etc, etc…deve ter me achado burrinha demais para passar todas essas marchas de uma só vez. Muito provavelmente o Tico e o Teco colidiriam frontalmente. Sem contar que entrava à esquerda quando ele dizia direita e dava o pisca para a direita quando queria ir para a esquerda.

Pois bem, coloquei a culpa no carro e troquei o Celta pelo Palio. Para a minha surpresa, cada instrutor vinha grudado ao carro e agora tenho um novo instrutor. Ele não é exatamente simpático, acho que é proibido aos instrutores ter senso de humor, mas ao menos não é estressado e parece ser paciente. E, o melhor de tudo: usa óculos escuros o tempo inteiro, o que me impede de ver se ele está fazendo caretas oculares (sim, porque é possível notar se o cara está de saco cheio ou te achando uma imbecil apenas pelo olhar) e me dá mais segurança.

Justamente quando decorei o esqueminha dos pedais (embora minha coordenação motora não colabore muito) começamos aula de baliza. Não sei por que raios sempre achei que baliza era ficar desviando de cones. Não é. Baliza é entrar e sair de uma garagem feita de canos verticais, basicamente. E você não pode um monte de coisa. Várias coisas reprovam e a possibilidade de passar me parece praticamente nula, mesmo assim resolvi ir em frente e descobrir se eu realmente conseguia fazer aquele troço estranho.

Primeiro, você liga o carro e dá sinal para a esquerda. Aí gira todo o volante para a esquerda e logo já dá sinal para a direita. Ok, parece fácil. O problema é que para girar o volante totalmente para a esquerda é necessário aplicar uma força descomunal. Me senti como uma escrava magrela, fracote e faminta, remando em plena tempestade, na galé. Carregando praticamente sozinha um navio de trocentas toneladas. Mais ou menos isso. Depois, quando você acha que acabou, tem que girar todo o volante para a direita. Rema, rema, rema, rema…

Olha no retrovisor, cuidado para não bater na baliza. Olha para trás. Quando a segunda baliza estiver perto da terceira risca do vidro, pára. Sinceramente, não me lembro do resto. Tenho problemas gravíssimos com esquemas não-escritos. Para eu decorar e entender, tem que ser tudo por escrito. Meu maior problema neste curso é me sentir um cérebro imenso e confuso, que não sabia que tinha braços e pernas. Todas as minhas dificuldades se concentram na tal da coordenação motora. Foi por isso que desisti de aprender a tocar piano (geralmente a mão esquerda acompanhava a direita, como se fossem coladas). Aprendi a escrever com as duas mãos e usar os dois lados do cérebro, mas não ao mesmo tempo.

Pessoas incrivelmente idiotas aprendem a dirigir, não é necessário inteligência. Pessoas extremamente inteligentes também aprendem a dirigir, não é necessário ignorância. Pessoas com deficiências físicas aprendem a dirigir, não é necessário ter dois braços e duas pernas funcionando perfeitamente. O problema é que sempre que somos confrontados com situações jamais vividas anteriormente, o interruptor “medo” é acionado instantaneamente. É ele quem nos paralisa, para evitar o desconhecido, ele descordena absolutamente tudo o que for necessário para que lidemos com a tal situação nova. E lutar contra ele, no escuro, para apertar novamente o botão que nos coloca no controle de nossas emoções e movimentos, é a parte mais complicada.

A grande vantagem dos desafios, seja aprender a cozinhar, dirigir, mexer no computador, falar outras línguas, até arranjar um novo emprego, iniciar um novo relacionamento, morar em uma nova cidade, morar sozinho, casar, ter um filho, trocar a primeira lâmpada ou mesmo a primeira fralda, é que quando, finalmente, você consegue acertar (mesmo que depois de uma série de erros), descobre que é capaz e renova a auto-estima. O chato é todo aquele processo cansativo necessário para chegar ao ápice, que é descobrir que aquele monstruoso leão de sete cabeças, na verdade, era um inocente e inofensivo gatinho. De uma cabeça só.

[09/11/2005]

(UPDATE: Quer ver a continuação disso?  Clique aqui para acessar o post com os links da saga completa)


Mauricéia –  Salvador  –  10/11/2005 ~ 10:49
Eu na época que fiz auto-escola sabia fazer baliza, depois fiquei mto tempo sem dirigir e como tudo é treino nessa vida, esqueci como se faz as tais, agora tenho uma tática, só estaciono em esquina e em final ou início de garagem, pra que sofrer, não é mesmo? até pq meu carro não tem direção hidráulica, ai tem q suar. Beijos.

Hipácia –  Johannesburg  –  10/11/2005 ~ 14:59
Sempre fui de achar jogos eletrônicos uma grande bobagem, e de me gabar de não perder tempo com isso – enquanto minhas irmãs são capazes de passar horas seguidas em frente ao computador finalizando jogos com milhares de fases, que depois viram filmes de ação no cinema. No entanto, uma das primeiras perguntas que minha instrutora me fez, na primeira aula de direção, foi exatamente se eu tinha o hábito jogar. Não demorou muito para comprovar a razão que ela apresentou: ela disse que as pessoas que jogavam video-game tinham mais facilidade em memorizar e executar as seqüencias de ações necessárias para dirigir. Não fui exatamente mal nas aulas, e consegui obter minha carta na segunda tentativa – da primeira vez realizei o percurso inteiro sem trocar de marcha (pulei essa etapa, perdi uma vida), mas até hoje sinto que meu raciocínio é um pouco mais lento do que o ideal, em trânsito. :^(

mariana –  araçatuba sp  –  01/12/2005 ~ 17:32
oi tudo bem ,estou vivendo este dilema estou apredendo a dirigir e me acho um asno tudo q vc passou eu também estou passando e lendo a matéria me senti melhor por saber q ñ sou a única q tem dificuldades para aprender a dirigir

Emilia –  Umuarama/PR  –  06/12/2005 ~ 11:59
Finalmente encontro pessoas como eu, que sofrem pra aprender a dirigir. Sinto-me mais humana agora, achava que eu tinha algum problema…

Vanusa –  Betim  –  25/12/2005 ~ 19:14
Passei na legislação e estou com muitos estimulos para começar a dirigir! Li e gostei muito do seu texto, bem articulado, humorado e sincero. Aprendi muito. ¡Besitos!

elis –  Vila Velha(ES)  –  06/02/2006 ~ 11:10
Parabéns vc expressou exatamente o que estou sentindo,fico feliz em saber que não sou a única e afinal pasou na prova de trânsito? Abraço de Elis.

cristina –  cuiaba  –  13/02/2006 ~ 15:31
muuuiiiito legal! Comecei o processo de apreender a dirigir, estou em panico sinto-me incapaz a cada aula que faço, conheco molequinhos de 14 anos que só de olharem já sabem dirigir isso me deixa frustrada e o pior tenho carro a 02 meses e fica mais parado que andando. Imagina voce sair de casa pegar onibus entupido, pagar passagem, acordar cedo, enfrentar o sol de Cuiabá,e o carro parado!!!, não sei se é pior pagar a prestação do financiamento sem usufruir do bem ou ouvir comentarios do tipo voce ainda não conseguiu?!!! Olha só Deus para me ajudar mas eu creio que vou ainda sair para onde eu quiser com meu carro e ainda vou ajudar quem não apreendeu. Eu sei que essa fase vai passar!

Tristinha –  Brasilia  –  08/03/2006 ~ 19:39
Hoje fiz meu exame de direção e reprovei.Chorei muito e quase tudo que você escreveu é exatamente o que sinto ou senti.Não sei se um dia serei apta mas vou tentar renovar minhas forças e fazer de novo. Me senti a pior pessoa desse mundo depois do dia de hoje. Obrigado pelo seu texto.

Ana paula –  belo horizonte  –  11/03/2006 ~ 19:11
Estou numa situação muito parecida com a que você descreveu ,não estou conseguindo entender baliza e nem dar ré estou apavorada,nunca dirigi já fiz 20 aulas

JU –  BH  –  13/03/2006 ~ 13:07
Olá… hoje foi minha primeira aula de direção. Tenho 24 anos e nunca havia sentado no banco do motorista. O cara já me colocou pra subir e descer morro, passar perto de escola… fiquei apavorada e cutuquei a internet pra ver se encontrava algum texto que me confortaria. Encontrei o seu. Depois de ler os dois últimos parágrafos, até fiquei mais animada. Acho que amanha estarei mais confiante. Valeu!!

Rô Nunes –  Curitiba  –  27/04/2006 ~ 17:22
Sabe qdo vc se identifica por completo com aquilo q está lendo? Foi assim, qdo li o seu, Vanessa. Até o detalhe do piano, igualzinho! E os esquemas não escritos, então? São as mesmas dificuldades que encontro. Vou para a 7ªaula e me sinto como um bebê sem a mãe. Credo! Mas,eu vou superar, principalmente depois que eu li seu texto, eu tenho certeza de que vou! Um abraço e obrigada por ajudar a tanta gente, sem saber.

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Recordar é…recordar :-)

Me deparei com um post que escrevi em meu aniversário de 29 anos e fiquei com vontade de postá-lo novamente, pois dois anos se passaram, mas continua sendo bastante atual para mim. Sei que deveria tê-lo publicado no dia 23 de janeiro, mas sinceramente…tanto faz. 🙂  faça de conta que hoje é 23 de janeiro, me deu vontade de publicar, até porque ele estava no blog antigo, que está ameaçado de extinção, já que vira e mexe penso em tirá-lo do ar.

29 anos

Aos 29 anos, minha mãe esperava o terceiro filho. Já meu pai, aos 29 anos, se preparava para o nascimento do quarto filho. Com 29 anos, o Davison me conheceu e começamos a namorar. Aos 29 anos, minha avó acabara de ter a quinta criança. Aos 29 anos, Sylvia Plath tentou o suicídio pela segunda vez. Augusto dos Anjos morreu aos 29 anos, assim como a cantora Dolores Duran.

O Arco do Triunfo demorou pouco mais de 29 anos para ser construído. John Nash teve sua esquizofrenia diagnosticada aos 29 anos. O casamento de Bach durou 29 anos. O reinado de Ezequias em Judá durou 29 anos. Também aos 29 anos Sidarta largou sua vida de príncipe para virar Buda e se transformar na estatueta gorducha e careca, a passar a eternidade em posição de lótus. A Guerra dos Trinta Anos, quem diria, durou apenas vinte e nove.

Um pouco menos importante (apenas um pouco) do que A Guerra dos Trinta anos, John Nash, Bach e o Arco do Triunfo, eu completo hoje, dia 23 de janeiro, 29 anos de idade. Bem acompanhada, já que, além de mim e do meu pai, também nasceram no dia 23 de janeiro o cineasta Eisenstein, a princesa Caroline de Mônaco e o pintor Manet, isso sem contar as milhares de outras pessoas que também devem compartilhar essa data conosco.

Algumas coisas, no entanto, se explicam…em 23 de janeiro de 1875 morreu o Marquês de Sapucaí…pois é, eu nasci comemorando a morte do sambódromo 🙂 deve ser por isso que detesto carnaval. Também não gosto do surrealismo, e Salvador Dali escolheu o dia do meu aniversário de nove anos para se despedir deste mundo. Espero que tenha ido em paz.

No dia 23 de janeiro aconteceram algumas coisas importantes, embora não tão importantes quanto o meu nascimento. Entre essas coisas, gostaria de destacar o desembarque da família real portuguesa na Bahia em 1808, fugindo de Napoleão, fato esse que obrigou a colônia a se transformar em algo mais civilizado, permitindo, inclusive, as primeiras impressões de livros -ou coisa que o valha, já prevendo que 192 anos depois, nasceria uma leitora voraz, que não conseguiria sobreviver sem um mercado editorial nacional decente. No dia 23 de janeiro de 1896, Wilhem Röntgen descobriu o raio X, para que, 98 anos depois, eu pudesse fazer a documentação ortodôntica necessária para colocar o aparelho fixo e, finalmente, consertar meus dentes.

No dia 23 de janeiro de 2009 senti como se fizesse aniversário pela primeira vez. Foram tantas mudanças no ano que se passou que tive vontade de comemorar, com bastante entusiasmo, esta data querida. O Davison levou isso tão a sério que arrumou uns balõezinhos coloridos, para enfeitar nossa sala…risos…teve bolo, vela, parabéns, pizza, pãezinhos com patê de ricota com tomates secos e suco natural de frutas vermelhas 🙂 Ele fez tudo (exceto o bolo e as velas, que vieram prontos), preparou a festa inteira para mim, me dando o maior presente do dia (depois eu lavei a louça…risos…pelo menos isso, né?).

Ganhei um livro, um ventilador, vários tubos de tinta, lâminas para o meu estilete, alfinetes e um cortador de pizza (sim, meus presentes são esquisitos, mas há uma explicação lógica, racional e fora do senso comum para cada um deles, acredite). Fiquei felicíssima, pois era tudo o que eu queria (sério, ver conteúdo dos parênteses anteriores), e mais feliz ainda por ter comemorado de verdade meu primeiro aniversário. Mais tarde meu irmão telefonou e conversamos bastante, terminando meu dia da melhor maneira possível.

Ter 29 anos é esquisito, pois você se sente adulta demais para estar na casa dos vinte, mas ainda precisa aguardar um ano inteiro para chegar aos trinta. É como estar em uma sala de espera. Meu irmão, no alto de seus quarenta anos, me disse para aproveitar, pois ainda estou na casa dos vinte. Porém, não posso me utilizar disso, pois o segundo dígito já denuncia que os vinte não me pertencem mais, como se eu quisesse me aproveitar de uma maquiagem com o prazo de validade vencido. No entanto, sou ainda “muito nova” para todos aqueles que já passaram dos trinta, que me consideram ainda nos vinte, até pela minha aparência.

No final das contas, chego à conclusão de que não devo prestar a menor atenção a esses dois números. Eles só dizem há quanto tempo estou neste mundo, mas não definem absolutamente nada a meu respeito. Às vezes sou jovem demais, às vezes sou mais adulta do que imaginava, transitando, como tantas pessoas, entre várias faixas etárias, em diversas situações. Temos a idade que nossa mente se propõe a ter, uma idade que não é medida em números, mas em entusiasmo, energia, alegria e paz de espírito. Uma idade que é medida em sonhos, em confiança, em esperança, em certeza, em flexibilidade, em vontade de crescer, de mudar, de melhorar, de ajudar a quem precisa.

Eu não levo mais os dramas a sério, e a vida tem sido muito mais leve, mais clara, mais fresca, como se alguém tivesse ligado o ar condicionado. Deus leva meu fardo, e o dissolve dia após dia. Cada manhã tem se aberto para mim como um mar de possibilidades, e cada novo dia é um presente. Fiz uma escolha consciente, de não me intoxicar mais com o que me fazia mal, e foi como se eu pendurasse aqueles balõezinhos coloridos dentro da minha cabeça. Sim, é estranho imaginar isso, mas foi a melhor analogia que pude fazer assim, subitamente, por mais esdúxula que pareça.

Já disse Fernando Pessoa que todas as cartas de amor são ridículas. Na verdade, a felicidade é ridícula para o mundo de hoje, que cultua o sofrimento, a tristeza, as desgraças e a desesperança, como se alimentar sentimentos negativos e uma visão negativa da vida fosse prova de inteligência, de raciocínio, de pensamento crítico e profundo. Não tenho medo algum de estender a bandeira da felicidade, por mais ridícula e que ela pareça a quem está preso ao modo acinzentado que impera em nosso mundo.

Minha felicidade é racional, serena, bem humorada, é a felicidade de alguém que já estava de saco cheio da ladainha deprimente e superficial do culto à dificuldade, à tristeza, ao carregar de pesos sobre as costas. Minha felicidade é ter, neste vinte e três de janeiro, a certeza de que, não importa quantas velas estejam sobre o bolo, a vida está apenas começando.

niver29

Originalmente publicado em 23/01/2009 no blog Maquinando.